Fazer terapia na minha língua materna?
Atualizado: 5 de ago.

Antes de tudo, vale lembrar que o principal "meio de trabalho" da psicoterapia é a palavra. É por meio da fala que o sujeito constrói narrativas, atribui sentidos às suas experiências e, na psicanálise, possibilita o acesso ao inconsciente. Mas, se a palavra é o instrumento do processo terapêutico, surge uma questão que sempre me inquietou, especialmente depois de viver em outros países: faz diferença fazer terapia na língua materna ou em um idioma aprendido?
À primeira vista, essa pode parecer apenas uma escolha de um código de comunicação. No entanto, ela vai muito além da simples tradução de palavras. O que está em jogo é a forma como sentimos aquilo que dizemos e como o outro recebe essa experiência. Existem palavras, como "graça", "mamata", "daí" ou tantas outras que até podem ser traduzidas, mas dificilmente carregam a mesma carga afetiva que possuem para quem cresceu falando português, cheio de caprichos!
A língua materna toca algo muito profundo na constituição do sujeito. Foi por meio dela que aprendemos quem éramos, quem eram nossos pais, como o mundo funcionava e como nossos desejos poderiam ou não ser expressos. É nessa língua que recebemos as primeiras nomeações, os primeiros afetos, as primeiras proibições e os primeiros reconhecimentos. Em outras palavras, ela guarda os vestígios das experiências mais primitivas da nossa relação com o Outro e da formação do nosso inconsciente.
Mas isso não significa que a terapia só possa acontecer na língua materna. Um dos exemplos mais conhecidos da literatura psicanalítica é o de Anna O.. Em determinados momentos de seu tratamento, ela não conseguia falar em sua língua materna, o alemão, recorrendo espontaneamente a uma língua aprendida. Curiosamente, foi justamente nesse idioma estrangeiro que conseguiu expressar conteúdos que permaneciam inacessíveis em sua língua de origem.
Casos como esse mostram que a língua materna nem sempre representa um lugar de segurança. Ela também pode carregar marcas de traumas, conflitos e desejos interditados. Em algumas situações, justamente por estar tão ligada às experiências infantis, ela pode sustentar resistências e defesas bastante consolidadas. A língua estrangeira, por sua vez, pode funcionar como uma certa distância emocional, oferecendo ao sujeito um espaço onde falar se torna menos ameaçador.
Por outro lado, quando é possível utilizá-la, a língua materna frequentemente permite um mergulho nas camadas mais arcaicas da subjetividade, onde palavra, memória e corpo se entrelaçam. É nela que permanece inscrito o enigma do desejo e a história singular de cada sujeito.
No fim das contas, talvez a pergunta não seja em qual língua a análise deve acontecer, mas em qual língua o sujeito consegue falar de si. A língua de uma análise não é determinada apenas pelo domínio gramatical, mas pela transferência e pela capacidade de a palavra (seja ela materna ou estrangeira) abrir espaço para que o sujeito emerja. Afinal, mesmo quando passamos a habitar outros idiomas, a língua materna nunca desaparece completamente. Ela continua ecoando, silenciosamente, em tudo aquilo que dizemos.
Fontes:
EL MALT, Samar Mohamad. Aquisição de linguagem: considerações sobre a relação língua materna e língua estrangeira. 2012. Dissertação (Mestrado em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2012.
CAMARGO, Fernanda Ferreira Vilhena de; AUGUSTO, Marcela Cavallari. Influências da língua materna e da língua estrangeira nas manifestações inconscientes. Momentum, Atibaia, v. 2, n. 21, p. 79–96, 2023. DOI: 10.60035/1678-0795.momentum-v2n21-469. Disponível em: https://doi.org/10.60035/1678-0795.momentum-v2n21-469. Acesso em: 28 jul. 2026.
MORAES, Maria Rita Salzano. Língua materna e estrangeiridade. Revista Solta a Voz, Goiânia, v. 20, n. 1, p. 65–72, 2009. DOI: 10.5216/rp.v20i1.6825. Disponível em: https://doi.org/10.5216/rp.v20i1.6825. Acesso em: 28 jul. 2026.